Nunca gostei da tua maneira de andar. Sempre desajeitado. Gostava das tuas camisolas. Nunca gostei de te despentear. Mas sempre adorei os teus caracóis. Sempre achei piada aos teus olhos castanhos. Nunca gostei do teu olhar em assuntos sérios. Gostava do olhar profundo. Como se sem dizer nada, falasses. Sempre adoraste as minhas palavras. Sempre odiei o que fazias com as tuas. Sempre adoraste prometer coisas. Adoro a sinceridade. Nunca gostei de livros sem fim. Sempre adoraste terrenos incertos. Gostava do simples. Do sem tempo. De nós livres à noite. Numa estrada deserta ou num recanto com pouca luz. Gostava da música ambiente e de depois me lembrar dela. Gostava do toque e da respiração. Gostava do ofegante. Depois do tranquilo. Da oscilação. Do encaixe. De sentir. Gostava do cigarro. Do ambiente e das conversas cheias de nada. Gostava dos vidros embaciados e das palavras. Dos sorrisos mais evidentes. Das gargalhadas. Dos olhares de relance. De veres se eu estava a olhar. Das minhas pernas no colo. Do meu vestido mal posto. Da minha roupa interior. Das tuas mãos. A minha descontração. O teu olhar de soslaio. Arrogante. Nada interessa. Interessa tudo, ali e agora. Amanhã sem promessas. Sem dúvidas. Ser o errado. Nunca vai ser certo. O erro preferido e a fraqueza mais forte. Eram as paredes e o tecto, donas desse pecado infinito guardador de segredos. As palavras perdidas e o que já não se soube dizer. As estradas desertas a velocidades incertas. Os caminhos em vão e as noites, e aquele frio. São segudos em cadernos. Cadernos nossos. Coisas que devia ter escrito para poder lembrar. Simples. Sempre simples, eu empoleirada e tu com os teus braços à minha volta, ficavas de pé.
Deixei. Deixámos. Aquela mesma casa de sempre. De paredes frágeis e telhados de vidro. Quando lá entro, esporadicamente e porque me visito, sinto. Sinto o chão gasto pelas horas de sempre. Sento-me e sinto o frio. Já não há uma cadeira mal almofadada. Nem o sofá rasgado que servia de cama. Nem as molas denunciadoras de um colchão quebrado. Nem a manta para dois, com rasgões de incertezas e buracos de tempo. A água congelou nos canos e as contas continuam na mesa improvisada de cabeceira. Por pagar. Sem luz. Já nem aquele candeeiro velho ao fundo do corredor. Fusiveis queimados pela falta e ausência. As cortinas estão sujas. Têm marcas de cigarros de noites perdidas. Nódoas de palavras lançadas junto com beatas. Negros. Tão negras. As paredes. Estão de um branco sujo com mãos marcadas e corações desbotados. Prontas para ficar ou servirem de catálogo a uma vulgar história de amor. Ocasionalmente sente-se uma brisa quente. As mesmas velas. As pontas de fósforos queimados. Ainda vive, aquela secretária. O candelabro e o cinzeiro. O meu papel. A tua caneta. A nossa história. Confesso que me sento ao meio da sala sem mesa de centro. No chão sem tapete. Nas ripas de madeira gasta. Sinto a dureza na pele. Passa as calças e qualquer casaco quente. É um gelo estranho no sentar. No mais uma vez sentar. Sentir. Esperar. Saber. Aprender a ouvir o silêncio e as presenças distantes que vagueiam pelos cantos da casa. Faz-se noite. Não corre o sabor da comida morna. Nem dos fósforos queimados. Nem do intervalo. Nem das roupas pelo chão. Nem da tua camisa perfumada. Nem da humidade que incomoda. Nem do frio que aquece. Nem do teu cabelo desgrenhado e aquela manta grená. Nem do teu toque subtil de quem sente. De quem não quer nem pode sentir. Como as luzes que lá estão mas sem interruptores que liguem. Há umas cinzas fugidas de cinzeiros gretados. E há um isqueiro caÃdo no chão. Uma vela de pavio já curto. Uma porta que range e um gato vadio à entrada. Olha-me com ar de desdém e inveja. Recebe-me sempre que chego. Arrasta-se quando parto. Cruzo-me com a vizinha.. que casa tão fria . Sim, não era preciso muito para se ter tudo e o pouco que havia, aquecia.
Ana Teixeira
Ana Teixeira
Nunca te pedi promessas. Amores sem fim. Nunca te pedi o bem nem o mal. Aceitei tudo o que tinhas na manga. Sem questionar. Pelo menos te. De olhos vendados numa praia deserta. Sozinha na insensatez desleal que nos unia por um fio. Leve e frágil. Abandonei a ideia de um amor maior que tu. E que eu. Que nós. Que emaranhado de coincidências e acasos. E sem te pedir nada sussurrei. Inspirei o som das tuas doces palavras. Das tuas delicadas e subtis, pequenas conquistas. Deixei que a tua silhueta se desenhasse sobre a luz reflectida na janela da minha cabeça. Admirei-a. Deixei que surrealmente os teus dentes me marcassem a pele. E sem sequer reflectir deixei que o toque dos teus dedos nas entranhas dos meus cabelos emaranhados pelo desejo, me levassem. Deixei que ficasses naquilo que mais tinha de meu. Que os nossos corpos se encaixassem numa quimica diabólica e desenhassem o que seriamos depois disso. Uma sombra. Ao meu ouvido deixei que se ouvisse o teu folego incontrolavel. A tua sede imensa. O teu amor para parvos. O teu dicionário indecifravel. Sem contextos nem possÃveis definições. Aceitei que adiasses. Que me adiasses. Que não fizesses planos. Afinal, era só um jogo. Jogado com as tuas regras e os teus quereres. Punhas e dispunhas. Fazias amor ao som de radiohead sem saberes o quão fucking special poderias ser. Ou vir a ser. Mal deste por ti eu tinha-me deixado de palavras cruzadas. Tinha deixado os romances na estante. Esqueci os teus lábios quentes. As tuas mãos. Geladas pelo frio das minhas formas. Aquele com que me aquecias. Pelo frio do vão de escadas onde nos sentámos e como dois estranhos fizémos amor. Pela rigidez daquela parede onde me ensinaste o que era querer loucamente. Sem limites. Sem pensar. Ponderar. Querer. Aprendeste que nem sempre era fácil ler-me. Mas que eu estava de tal forma sem chão, paredes e tecto que a qualquer segundo era eu quem me deixava cair por terra. Quem se deixava ruir. Foi quando leste no meu mural interno escrito a pau de giz que eu era frágil. Fo quando te leste. Quando te leste em mim. Que não te amava mas que jamais te negaria. Podia não ser ao fim da primeira ou segunda tentativa mas que em algum momento eu haveria de continuar ali. Pois é. Lá estou eu. Com a força para te exorcizar. Mas quando tento desenhar o ponto negro, o ponto de final, acabo por rabiscar umas reticências e continuo a respirar-te como verdade. Como se ali estivesses ou pertencesses ao espólio de uma vida. E aà tens a certeza. A certeza de que eu sei que o amor é para os parvos, para quem acredita nele mas que aquilo que sinto e pronuncio vai buscar ao amor a primeira da suas essências. Gostar. Sentir. E vais-te deixando ficar. Perdoas as minhas ausências e palavras disperas. Doces e subtis na sua origem mas transtornadas pela falta de sentido. Do teu sentido. Perdoas as distâncias a que me deixei ficar. As saudades que deixaste. Que nunca soubeste perder. As minhas. As tuas por mim. As nossas saudades. Pedes-me que aprenda ou pelo menos tente, aprender a perdoar. Para deixar que o teu carro possa vir buscar-me ou que à s cinco da manhã o teu telemovel possa tocar com a resposta ao teu querer: ainda estás acordada? Estou e estarei mas sem que a minha sede te procure. Sem que possas saber o vazio que deixas de todas as vezes que partes em silêncio. Sem que possas saber quantos pedaços ainda restam no chão. Naquele chão em que nos perdemos. Desculpa mas já não o posso pisar. Auto mutilar-me-ia sem motivo aparente. Sim, os restos dos vidros partidos continuam lá. Os estrilhaços de uma história, ainda, ali caidos. Sim continuamos lá por colar. Mas eu não me vou cortar. Desculpa, desculpa, desculpa mas não me arrisco. Não me vou arriscar. Deixa-te ficar. “Está quente aqui e la fora faz frio… ouve, o amor é para os parvos que acreditam nele. O resto é tão mais” sussurravas tu. “Não me vou cortar” encostava a cabeça e dizia eu, sem que sequer pudesses ouvir.
Ainda pensei em escrever-te uma carta. Depois pensei que ia ter um toque de despedida que não queria, por saber que na verdade, nunca quis largar-te a mão. Não fui capaz de fazer o caminho sob aquelas pedras gastas dos tempos aureos de loucura e ilusão. Iludi-me demais e fui-me deixando ir ao sabor da brisa. Não pensei no fim e na tua ausência. Nas músicas cravadas como agulhas. Nas dores latejantes das lembraças de um tempo perdido. Também nunca pensei que voltasses, confesso. Tinha-te como miragem. Reflectias-te num qualquer espelho, sempre atrás de mim, como marca convicta da minha falta de sensatez momentanea. Secalhar hoje seria diferente. Secalhar o desejo far-me-ia para sempre tua, mais do que o sabor tentador de me possuires como nunca antes havias feito. Já amachuquei mil papéis. Todos sujos com as minhas fracas palavras que nunca chegarão para te contar sensações e tremores. Medos e saberes. Idas e voltas. Impulsos e controlos. Sabes lá a minha, que era tua, nossa história. Sempre vivemos vidas paralelas. Para lá de nós e dos nossos pressupostos sentimentos. Para lá dos outros e de tantos rodeios. Para lá das gavetas que guardam chaves unicas de caixas ferrujentas. Que não queremos abrir. Que quisemos tanto fechar. Olho para o meu relógio de parede e vejo como o tempo passou. Como nunca nos deixámos ficar presos aqueles ponteiros, ditadores daquele tempo limitado e irrepetivel. É bom saber que as vezes ainda ai estás e sentes falta do meu calor. Procuras o cheiro do meu perfume. O aroma do meu cabelo ainda molhado do banho, com aquelas ondas que tanto contrastam com as linhas rectas e repetidas habituais. O toque das minhas mãos. O sabor dos teus lábios. O estar ali só por estar. O ficar. Apenas por ficar. Sem perguntas nem respostas. Expectativas ou perguntas. No mesmo silêncio sem amanhã. Sem pensar. Sem tocar o céu ou o inferno. A tranquilidade e a leveza. Como vês, não era possivel escrever uma carta. Perder-se-iam por entre as linhas, o calor das palavras e o sabor das letras. Das tuas letras que eram as minhas palavras. Das linhas que eram as tuas, nossas, histórias.
Senta-te comigo e deixa que troquemos umas palavras sinceras. Não te quero pedir que fiques para sempre e muito menos que prometas impossiveis. Sei que não tens tempo e que não podes que te vejam. Sei que não é por não gostares ou não quereres mas porque o tempo assim nos fez, sempre desconhecidos e eternos segredos. Deixámos aquele nosso recanto de desejo e impossivel para saber o que era o conforto de uma casa quente. Saber como era acordar e ter torradas, chegar e ter café, deitar e sentir o calor da lareira, acender e alguém apagar porque no escuro é melhor e mais intenso. O guarda roupa duplicou de tamanho e há mais gavetas… estranho, antigamente uma gaveta chegava para dois. Mas isso era quando o singular encaixava no plural. Quando um copo chegava para dois, uma manta cobria o mesmo frio e uma garrafa aquecia dois corpos gelados. E não que agora a playlist seja diferente e as músicas tenham mudado. Não que eu não vista a mesma camisola, que parecia de noite, com rendas dobradas com que deliciosamente implicavas. Agora só não estás lá para a ver. E podes pensar que ainda somos algo parecidos. Mas não somos. Talvez nos encontremos na forma de ver o mundo de uma esquina suja pelos pós dos que passam sem se verem mas há muito mais que saber, muito mais para além disso. Há muito mais para além de nós. E mesmo assim estamos sempre lá. A chuva e as folhas secas caidas à minha que era nossa, porta. O nevoeiro com o cachecol enrolado ao pescoço a fugir da vista e nós de olhos entre abertos pela dor, no sol que erradia pela janela e se reflecte naquele espelho, o da nossa imagem. E o silêncio. Esse com que nunca deixaste os nossos lugares. Agora só não sabes o que escrevo em traços largos nos caminhos estreitos da alma. Não sabes quantas vezes mudo a água das flores que me deste ou sequer se ainda as tenho naquela jarra de conquistas capazes de esgotar. Podes até saber a cor do vestido que te tirava o norte, podes saber como era bom o cabelo sem nós adormecido no teu peito mas o que guardo nas gavetas só para um, o que bebo no meu copo de cristal ou a amargura do meu café, isso não podes saber. Foste sem destino e não deixaste cartas. De vez em quando apareces num rasto de avião, mas como sei se vens, se me habituei a que fosses?
Naquela noite algo se soltou em mim e me levou até à s lembranças dos tempos que não voltam. Levantei os lençóis e espreitei por baixo da cama. Ao longe podia ver-se um vulto. Parecia quadrado. Aproximei-me em pés descalços para tentar perceber melhor o que poderia estar por entre a poeira que por esquecimento nunca mais tinha limpo. Uma caixa negra a quem parecia ter-se arrancado o forro colorido que servia de transporte a um qualquer objecto. Lá dentro pedaços de cartas rasgadas. Resquicios de memórias sem fim. Um passado distante que por momentos pareceu tão perto. Um esforço por juntar as cinzas, tal e qual uma fénix, permitiu ler o que se disse, o que se escreveu e prometeu. Como uma exorcização do próprio corpo, da mesma alma, num lugar longinquo e que ninguém conhece. Deixar sair o ar pesado pelas janelas e entrar pelas portas uma corrente de ar que nos faça morrer e nascer de novo. Meses e meses e nem uma palavra. Estamos diferentes. Crescemos e deixámos para trás a chance. Largámos a casa de paredes frágeis numa sombria solidão, com falta daquele calor que são agora dois corpos gelados. Os vasos cobertos de terra seca, deixaram morrer as flores e nós naquele estado petrificado de incerteza, morremos na praia. Não fui eu que não quis caminhar, foste tu que me tiraste o fôlego, naquele beco sem saÃda onde me deixaste desarmada. Arrependo-me de não ter voltado lá, para te agradecer as mil vezes em que me deixaste sem ar quando ainda estava de armas em punho e sabia lutar. Depois disso, dois rumos opostos e agora já não te encontro nem numa rua paralela, em dias de chuva, mas sem chapéu para te cobrir, como era costume. Já não nos encontro. Só nas cinzas dos meus cigarros queimados pelo tempo. Só nos relógios de bolso, parados há tempo incerto. Só nos pedaços de cartas. Só nas lembranças de ti, de mim, de nós, do tempo de sempre e do que nos transforma. Só nas caixas escuras e empoeiradas a que já ninguém volta.
Estava escuro e o relógio já marcava para lá das 5 da madrugada. Junto às janelas podiam ver-se as pessoas que ansiavam respostas. Senti o vibrar do telemovel. Chegaste. Um alivio percorre-me as veias enquanto o vento gelado me beijava a pele. Queria isso mais do que qualquer coisa. Estava consumida. Nem ar, nem mar, nem terra, nem sol. Só tu que te escondias e teimavas em demorar. Finalmente. Estavas ali. Não eras ilusão nem miragem, tinhas vida e podia tocar-te. "Tive saudades" dizias. Nem imaginas o ardor no peito por não dobrares as esquinas das minhas fragilidades e me abraçares. Os ponteiros do relógio nunca cessavam mas pareciam arrogantes na forma de andar, lentamente e com olhar de soslaio sobre o meu suster, sobre o meu pensar. O caminho foi longo e tantas foram as vezes que em que tropeçámos. Nas cascas das frutas que no verão eram fantasia e na sobriedade do inverno eram curvas atrozes. Deves ter muito que contar, do tempo que tão curto e tão sensivelmente eterno passaste longe. Senta-te. Sirvo-te um abraço, quem sabe um beijo. Um recomeço ou a continuação do que nunca foi fim. Fica, conta-me tudo, desta vez não quero que me escondas nada.
Ana Teixeira
Ana Teixeira