Deixa-te de rodeios. Podes entrar. Não preciso que me digas que não me contas com medo de me quebrar. Eu não quebro. As piores confissões são feitas com um copo de vinho na mão direita e não escrevinhadas numa carta, que comodamente, enviamos pelo correio. Senta-te comigo. Deixa-me observar, como se tivesse uma capacidade sobrenatural para te ler. E para deixar que me leias. Acho que jamais, o segundo claro. Fala-me de como foi quando só sobrou o vazio. Acendes um cigarro, passa, trava e olha em volta. Aposto que havia alguem. Ou tu. Ou nós. Ou vós. Os que desconheço. Ainda tenho um lugar para ocupares, confessa-te. Confessa-me. Quem foi desta vez que preencheu o desejo, os devaneios e as maiores fantasias? A marca do meu baton vermelho já está no copo. Esse, meio vazio. Talvez meio cheio. Depende da perspectiva. Mas não demores. Afinal não temos todo o tempo do mundo. Não tinhamos. Não tivemos. Curioso, desta vez não pareces tão audaz. Incrivel como sempre te incendiaste com aquela capacidade desmazelada de ser sexy. Nas palavras e nos actos. Perdes a compostura e já nem uma palavra dizes. Desta vez já nem um atrevimento descarado, daqueles de perder o norte. Desconcentras-te. Pedes desculpa. Agarras, em ti e naquilo que nunca conseguiste contar. Mas que eu já sabia de ante-mão. Jão não tenho baton só nos lábios. Mas descansa, todos sabemos que não foste tu que o esborrataste. A cassete volta ao inicio. A história repete-se e é sempre igual. Sim sim eu sei, não te canses, no que depender de ti aquele vermelho de afronta, nunca sairá do sitio onde eu o pus. Mas deixa lá, eu sempre soube. Só não o disse porque… para isso tinha que perder a compostura. E isso. Nunca.
Não quis esperar que o tempo curasse aquilo que nós nunca soubemos curar. E agora escrevo-te como se me quisesse justificar, mesmo sabendo que me estou a condenar e que nunca vou saber trancar-te em mim. Como uma carta aberta de verdades que vão sempre corroer-me o pensamento. O vento deixou escapar um ar gélido, hoje quando sai pela manhã, que quase me queimava os lábios, tal como as palavras que me obriguei a dizer. Não que não sentisse mas porque a minha impulsividade me deixa sempre em apuros. Agora sobra apanhar os papéis e fotos rasgadas que na acesa disputa de mágoas largámos no chão, sobram os arrependimentos e orgulhos feridos, as palavras que provavelmente se desejam apagar, as lágrimas que esperei que voltasses para secar. Falta estancar o sangue que não pára de jorrar, mesmo sabendo que as cicatrizes vão ficar, que as imperfeições dos actos e as incorrecções das desculpas vão mostrar-me para sempre aquela ferida semi-aberta, semi-fechada. Como a porta que sempre teve um problema e nunca se soube muito bem se fechava ou se abria. Porque se abrisse impedia alguém de pensar e estar só, de consumir o cansaço e procurar o alivio, mas se fechasse ignorava todas novas chances de recuar e fazer diferente. O tempo é amargo e não cura aquilo que nunca conseguimos ultrapassar. O tempo não nos dá asas nem respostas, o tempo deixa-nos sós num vazio que nunca acaba. O tempo deixa-nos rir quando alguém está perto de nós e tortura-nos, como se uma fina folha de papel nos cortasse, quando no silêncio da noite só restamos nós. Nós. Esse tempo. Aquele silêncio. Aquele que supostamente sempre desejámos e com o qual agora, não sabemos lidar. E agora nem sei se voltas. Nem sei se eu mesma sou capaz de voltar. Corri para o colo de quem me quisesse ouvir com uma miúda insegura que acabou de esfolar os cotovelos na calçada por querer correr demasiado depressa. Quando menos se espera a mãe tinha razão quando quase berrava para não corrermos demasiado depressa e não querermos usar as roupas dela na ânsia de crescer. Elas sabiam que era muito mais fácil ouvir as nossas lágrimas pelo ardor da água oxigenada do que limpá-las com todos os lenços do mundo, por saberem que era o nosso coração que estava esfolado e que nenhum remédio tinha as propriedades suficientes para nos curar de forma quase instantânea.
Ana Teixeira
Ana Teixeira
Nunca perguntei a ninguém em que tempo vive ou quanto tempo esperaria por mim. Sempre fui à frente do meu tempo e atrás da realidade que me toca a pele. O tempo é dos que agem. Dos que reagem e não dos que esperam que melodia da canção lhes possa trazer uma resposta. Nunca peço que fiquem ou imploro que esperem. Sou de avanços e de impulsos e quando menos espero é tudo isso que me troca o passo. É tudo isso que me inverte o rumo. É tudo isso que me fecha as portas. Parece que o destino nos quebrou. Não mais a tristeza voltará a mim. O meu sonho largou-nos. Sobra o tempo, aquele vazio que espalha as cinzas, que são tudo o que restou de tanta guerra. Cultivámos um devaneio, demos-lhe de beber e agora o tempo não nos deixa fugir. Deixa-me conhecer o caminho para lhe perguntar porque foge. Conhecer o vento e pedir-lhe que não mais espalhe o desconcerto. Nunca soube nada. Sobre ti. Sobre nós. Sobre nada. Não iria o desejo esvair-se quando finalmente não houvesse mais nada? Não seriam tudo romantismos exacerbados para explicar o passo que nunca se deu? Algum dia conheceste o meu tempo e o meu ritmo ou terá havido sempre um eu e um tu e uma música harmoniosa de fundo, que fazia crer uma união? Não terá sido incrivelmente infantil quando se quis jogar num tabuleiro sem casa de chegada? E se assim for, então do que vale tudo o que se disse? Que valor têm as palavras? E o tempo? Aquele que nunca conhecemos ou soubemos controlar. E as promessas? Oh essas... aquelas que nem o desejo fez sobreviver. Que proeza a tua em me manteres crente! Que burrice a minha em querer acreditar! Nenhuma das chaves que me deste abria a tua porta. Nenhuma correspondia no trinco. E eu… eu desisti de tentar abri-las. E sim, talvez um dia sejas capaz de ver quantas foram as vezes em que em silêncio me pediste que ficasse... As vezes em que sem me tocares me agarraste a mão e pediste que continuasse aqui. A crer num tempo. A crer num destino. A crer em algo que é frágil. Algo que é frágil e se quebra. Algo que sem hesitar, quebrou.
Ana Teixeira
Ana Teixeira
Incrível como ainda há meses te escrevia. Como ainda procurava as palavras certas para te falar por entre os bloqueios e todos aqueles infindáveis sentimentos de culpa. Como queria a tua amizade, mesmo sem a conhecer. Oh, como a desejava! O problema é quando desejamos as coisas mesmo antes de as conhecermos. O problema é queremos as respostas que acabamos por encontrar da pior maneira. A amizade vem primeiro, o resto vem depois. Deixemos de ser as idílicas crianças que acreditam na amizade depois do desejo. No final feliz depois da histórica dramática. Grita e jura que nunca mais confias. Fecha essa gaveta, arranca essa página, corta o cabelo, pinta as unhas de uma cor berrante. Reage. Mas não esperes a amizade que nunca quiseste ter. Nunca esperes uma coisa que na verdade jamais desejaste. Aquilo que querias não tiveste, portanto não corras só para dizer que não cortaste a meta e desististe a meio. Não queiras um prémio de consolação. Quer tudo ou não queiras nada. A amizade vem antes de tudo o resto. E se nunca a procuraste é porque verdadeiramente nunca foi isso que quiseste. Não mistures tudo. Não vejas a compaixão como a solução. Não queiras os resquícios daquilo que já se perdeu. A magia findou e não há nada que possas fazer. Todas as coisas têm o seu tempo. Esse teu tempo já lá vai. As lojas já fecharam. O cinema já não tem mais sessões. Já passou da hora. Esquece. Não te confesses, nunca pecaste. Não queiras perdoar quem nunca te pediu desculpa. Não te enterres a ti e ao balde de gelado no fundo do sofá escuro com a jukebox no máximo. Não oiças melodias que te tragam lembranças. A amizade às vezes é uma merda. O desejo também o é. A amizade vem primeiro. O resto vem depois.
Ana Teixeira
Ana Teixeira
Posso abrir a porta? Deixa-me entrar. Não te recuses mesmo antes de saberes ao que venho. Não é pedir demais, é só como entregar um sorriso que levemente me consuma por dentro e faça valer a pena ter tentado entrar. Depois disso, veremos. Vamos fazer promessas que nunca vamos cumprir. Juras que nunca serão as nossas. Brindemos à nossa empatia e procuremos respostas por entre os lençóis. Deixa-me esperar a tua resposta enquanto me vês vestir. De costas voltadas. Em todo o encanto que isso possa ter. Espera. Deixa que te mande à merda por não te saber resistir. Espera que eu volte, porque vou fazê-lo. Vamos fingir que existiu amor por entre os suspiros de prazer e desejo. Talvez isso nos faça esquecer do que somos ali mas que nunca seremos. Diz-me que me amas mesmo que eu saiba que não o sentes. Como combinado, faremos juras que não são as nossas. Perde-te em mim. Não hesites. Eu não vou hesitar em fazer-me tua. Depois perceberemos que foi um erro. Uma estupidez que não nos levou a lugar nenhum, mas foi um bom momento, ou não? Entendamos que nem sempre as palavras são aquilo que precisamos, nem sempre o amor está ao virar de cada esquina. Nem sempre sentir é uma coisa fácil. Já não é isso que me apetece. Sentir, sinta quem queira.
Ana Teixeira
Ana Teixeira
As vezes é bom saber que ainda lá estás. É bom saber que ainda te lembras, que ainda sou o refúgio na angustia que parece não cessar. É bom saber que aquela música ainda te lembra de mim. Que o tempo que passou não foi suficiente para nos soltar. Para nos deixar cair. Talvez tivesse sido melhor. Talvez a tua ausência e desapego me tivesse feito lembrar daquilo que nunca existiu. Mas não. As ruas desertas faziam-me lembrar as palavras cheias de tudo, que nunca te disse. As janelas com estores ao fundo, sem uma única brecha de fora, lembravam-me os momentos vazios em monólogos frios. Em busca de respostas. Desculpas ou justificações. Para não lembrar que no fundo, nada tinha perdão. Porque nem a ofensa tinha sido tão intensa que sozinha fumasse as pontas dos cigarros enregelados pelo vento frio. O fosso não era assim tão profundo. Não o suficiente para me queimar a pele e fazer despertar. Ainda tinhas uma chance. Para mim, ainda tinhas. Ainda podias voltar pelo caminho que sempre conheceste. Que memorizaste e para onde fugiste sempre que o ecrã dos teus batimentos estava quase a desenhar uma única linha. Aquela que sempre, mas sempre, nos dividiu. Marcou a distância e a diferença. O calor e o frio. O carinho e a compaixão. Não pretendo que fiques, diz-me apenas se espero. Até amanhã ou depois. Porque se ainda te lembras tanto, talvez voltes. E o meu instinto pede-me que fique. Por ti ou por mim. Quase implora, como se se ajoelhasse e me gritasse para não me mexer de onde estava. Para ficar gelada como o cigarro. Para me deixar fumar. Para me deixar… lembrares-te que ainda estou ali. Que ainda estou e que tu… tu ainda te lembras que sim.
Ana Teixeira
Ana Teixeira
[Perdoem-me caros leitores a ausência. Aqui estou eu de volta. E que regresso.Que dia tão chuvoso. Sabe bem ao pensar. ]
Que tempo horrível. Que frio me congela os ossos. Os casacos não chegam. Maldito sejas. Maldito tempo. Mas perdes. Só me prendes os movimentos. Os pensamentos não. Esses. A chuva fá-los fluir. Como a turbulência de um temporal. Mas com clareza. A mesma clareza da chuva. Que me molha. Que me deixa submersa. Que escorre no meu cabelo. Que o faz ondulado. Que me faz perder. Em mim. Em ti. No que já passou. Quando chego a casa o pouco basta-me. Sai naquela estação fria. Coberta de histórias. De momentos. Onde nas paredes ficaram devaneios. Ansiedades. Que carregava comigo. Mas que ficavam por todo o lado. Por tudo onde passava. Preciso de um banho. Água a ferver. Quase me queima a pele. E mesmo assim. Não me acorda. Não me faz consciente. Enrolada na toalha. A pele vermelha. Prestes a saltar. Vejo-me ali. Nua. Despida. De mim. Como as vezes me dou a alguém. Mas vestida. Não são as ausências. Nem as presenças. Nem tão pouco saudades. É só a confusão. O deja vu. Ver tudo mesmo ali. Tão perto. E tão longe. Estares ali. Tão longe. Mas tão perto. Ou talvez seja apenas eu. A roupa molhada. Caída no chão. Como aquela curta memória. Que se perdeu na chuva. Que o vento levou. Que a água desfez. Nada se via através dos cabelos. Só os olhos molhados. A cara que escorria. Tão cinema. Mas tão real. Ficava-se assim. Perdidos na imensidão de um tempo. Sem fim. Sem correrias. Nem frenesins. Com os relógios parados. Com promessas de um dia. Talvez um dia. Quem sabe um dia. E depois. Nunca um dia. As mesmas personagens. No mesmo cenário. A cobrarem. No silêncio. Que tanto falava. Que tanto dizia. Do que houve.Do que nunca existiu. Tão verdade. Tantas palavras. Nunca ditas ao acaso. Por algum motivo nunca se fechou a porta. Nunca se abandonou o resto das cinzas. As tais que ainda sobravam no canto da porta. Ao encostar e ao bater do seu vazio. Faltaram as palavras. Talvez. E ainda há muito por dizer. Muita água para cair. Muitas tempestades para ultrapassar. Muitas cinzas por apanhar. Antes de sair. Esquecer. Arrumar. Fechar. A porta. Ou quem sabe nunca se feche. Ou mesmo um dia se abra. Por enquanto olho pela janela. A varanda vai inundar. Pena não estar lá. Para que à beira do abismo. Pudesse dizer tudo. Tudo. Tudo.
Ana Teixeira
Que tempo horrível. Que frio me congela os ossos. Os casacos não chegam. Maldito sejas. Maldito tempo. Mas perdes. Só me prendes os movimentos. Os pensamentos não. Esses. A chuva fá-los fluir. Como a turbulência de um temporal. Mas com clareza. A mesma clareza da chuva. Que me molha. Que me deixa submersa. Que escorre no meu cabelo. Que o faz ondulado. Que me faz perder. Em mim. Em ti. No que já passou. Quando chego a casa o pouco basta-me. Sai naquela estação fria. Coberta de histórias. De momentos. Onde nas paredes ficaram devaneios. Ansiedades. Que carregava comigo. Mas que ficavam por todo o lado. Por tudo onde passava. Preciso de um banho. Água a ferver. Quase me queima a pele. E mesmo assim. Não me acorda. Não me faz consciente. Enrolada na toalha. A pele vermelha. Prestes a saltar. Vejo-me ali. Nua. Despida. De mim. Como as vezes me dou a alguém. Mas vestida. Não são as ausências. Nem as presenças. Nem tão pouco saudades. É só a confusão. O deja vu. Ver tudo mesmo ali. Tão perto. E tão longe. Estares ali. Tão longe. Mas tão perto. Ou talvez seja apenas eu. A roupa molhada. Caída no chão. Como aquela curta memória. Que se perdeu na chuva. Que o vento levou. Que a água desfez. Nada se via através dos cabelos. Só os olhos molhados. A cara que escorria. Tão cinema. Mas tão real. Ficava-se assim. Perdidos na imensidão de um tempo. Sem fim. Sem correrias. Nem frenesins. Com os relógios parados. Com promessas de um dia. Talvez um dia. Quem sabe um dia. E depois. Nunca um dia. As mesmas personagens. No mesmo cenário. A cobrarem. No silêncio. Que tanto falava. Que tanto dizia. Do que houve.Do que nunca existiu. Tão verdade. Tantas palavras. Nunca ditas ao acaso. Por algum motivo nunca se fechou a porta. Nunca se abandonou o resto das cinzas. As tais que ainda sobravam no canto da porta. Ao encostar e ao bater do seu vazio. Faltaram as palavras. Talvez. E ainda há muito por dizer. Muita água para cair. Muitas tempestades para ultrapassar. Muitas cinzas por apanhar. Antes de sair. Esquecer. Arrumar. Fechar. A porta. Ou quem sabe nunca se feche. Ou mesmo um dia se abra. Por enquanto olho pela janela. A varanda vai inundar. Pena não estar lá. Para que à beira do abismo. Pudesse dizer tudo. Tudo. Tudo.
Ana Teixeira