E quando a noite se instala sente-se o cheiro e o estar. Sente-se. Sente-se o cheiro das tuas mãos, o teu cheiro, naquela camisola três números acima com que se adormeceu. Por isso abre a porta, deixa-me ficar. Ou mesmo sem ficar, deixa-me estar. Promete coisas que não vais cumprir. Fica, acordado, à espera de um amanhã incerto. Não vivas na sombra. Na sombra de incertezas e saberes. Deixa-te ficar mesmo sem saber. Deixa cair a noite e os lençóis sobre a pele fria. Deixa cair o desejo de olhos fechados e abraços apertados. Deixa sem pensar. Podes só cá estar uma vez, posso partir amanhã. Desfaz aquela maquilhagem sem falhas, aquele batom sem desvios, aquele vestido certo e aquele cabelo. Deixa de ser assim. Deixa que caia a noite e ainda lá estejas. Eu. Tu. Deixa que possa chegar à cozinha primeiro que tu. Beber os teus iogurtes. Chatear-te. Fazer-te cócegas. Deixa. Deixa que possa sorrir-te por cima do ombro enquanto de costas, me vês vestir. Deixa que possa subtilmente odiar. Odiavelmente querer. Deixa que possa saber que posso. Deixa que possa ficar e ser. Deixa. E quando deixares, deixa um espaço. Um espaço para que não fique sozinha. Um espaço para mais que um. Não necessariamente dois. Um espaço onde juntos, caibam dois, ou um. Mas promete, que quando deixares, deixas. Deixas mesmo.
Já te esqueces da chave, porque a tua casa mudou. Nao te preoucupas com o telefone porque está tudo ali ao lado. Estão ali, lado a lado. As canetas ficaram na secretária antiga, que agora mal usas para reescrever em papéis velhos. Agora escreves. Contas de novo e para futuro. Aquela és tu. Sais de casa com mau olhar para o guarda roupa. O cabelo desgrenhado e as camisolas tamanho xxl. Não é importante. As grandes despedidas ou um acenar. As grandes chegadas ou um beijo na testa. Adormeces ao som do que te lembras e acordas com sons que não esqueces. Não foi aquela palavra ou muito menos aquele verso. Foi só um momento. Um carinho ou um desejo de. Um olhar de soslaio ou um sorriso mordido.
Já não se vê relógios, o tempo é todo e inteiro. Cabe na mão bem fechada da noite ou do ultimo cigarro que nunca acaba. Num espaço onde cabem dois. Tiram-se os sapatos antes de entrar, segredo e nada de barulho. A mesma entrada e o mesmo abajour preto e branco. As chaves ficaram penduradas. Mais uma vez, mas não foi esquecimento. Não se entrou no sitio errado. Não há lugares seguros. Nem abraços sem fim. E depois da fuga, depois, volta-se sempre a casa.
Ana Teixeira
Já não se vê relógios, o tempo é todo e inteiro. Cabe na mão bem fechada da noite ou do ultimo cigarro que nunca acaba. Num espaço onde cabem dois. Tiram-se os sapatos antes de entrar, segredo e nada de barulho. A mesma entrada e o mesmo abajour preto e branco. As chaves ficaram penduradas. Mais uma vez, mas não foi esquecimento. Não se entrou no sitio errado. Não há lugares seguros. Nem abraços sem fim. E depois da fuga, depois, volta-se sempre a casa.
Ana Teixeira
Ela nunca vai ser para ti uma coisa que já tenhas tido. Uma tem os cabelos longos. Ela tem médio. Partilham só os olhos castanhos. Os corpos unem, numa junção hipotéticamente quase perfeita, mas são diferentes. Como as sensações. Uma vai contigo ao cinema e imaginam um filme que julgam viver. Dão as mãos e trocam juras. Este e aquele amor. Ela conta um filme quase perverso. Vive um clima que nunca prevê e faz as juras de nunca desaparecer. De nunca estar longe ou ir viver mais logo. Uma revira os olhos quando discutem, promete que se vai embora e que nunca mais te quer ver. Dá um estalo. Bate com o punho na mesa e nem sabe da missa a metade. Ela não discute. Conversa contigo e promete, apesar de tudo, ficar. Aponta-te os defeitos e a forma absurdamente racional como lidas com tudo. Diz que foi a última vez e que a tua escolha impera. Mas nunca parte. Fica sempre para ver. Invisivelmente ao teu lado, invariavelmente ao teu redor, invencivelmente ao teu alcançe. Uma publica ao mundo o teu que é seu e vosso amor. O incontestavel falso carinho. O arrogante gostar e querer porque faz bem e parece bem. Não te conhece. Não te sabe os passos, mas vai estar inesgotavelmente contigo, sem nunca te por em causa, sem nunca duvidar. Ela já duvidou do mundo por ti, já pensou tantas e tantas vezes na sorte. E no azar. No querer que não vai deixar de ser nunca. Na tua viciosa virtude. Sobre todos os pecados que conscientemente esconde, de ti, por ti. Uma é aquilo que julgas querer e construir idealmente para sempre. Ela é aquilo que talvez não saibas que sempre quiseste mas que nunca tiveste coragem para ter. Porque uma, na ingenuidade de ser, pensa que conhece. Outros acham que te conhecem. Mas ela, ela conhece-te. Ela não vai ser a que tu apresentas aos teus pais, não vai ser a que os teus amigos conhecem. Não vai ser a mais bonita história de amor, não vai ter direito a fotos nem demonstrações de afecto. Ela provavelmente não vai ficar contigo, nunca. É o teu golpe de sorte eterna. E tu largas. E ela sabe de tudo isso e mais um pouco. E mesmo assim, vai sempre estar por ali. E isso é talvez uma das mais bonitas formas de querer. Não há comparação no querer e ela vai sempre ser diferente. Tão diferente, que nunca nada será igual.
Ana Teixeira
Ana Teixeira
Mas nem sempre foi assim. Nem sequer foi sempre que fumei o cigarro e te deixei a ponta. Nem sempre partilhei nem quis dar o que é meu. E sem contar os passos e os intervalos compassados por respirações reticentes, fui deixando cair. Tirei a máscara e do pó fiz um fumo estonteante que me deixou sem ver. Até a janela e aquele recanto. Ficámos num escuro impossÃvel de se ver. E mesmo nesse escuro pudemos saber que, impossÃvel, era não ficar. Sem consequências nem estalos. Sem se punir no segredo ou na inconfidência. Nem sempre me despi. E aÃ, até de ti e de mim e do que fez ser nós e afinal, ser nada. Foi um caminho sem estrada e uma morte na praia com pouco que contar. No fundo, nem há culpa. Não sei se fui eu que não te soube ler ou se foste tu que simplesmente vieste sem hora marcada para ter. Sem destino nem rumo, nem uma sombra de fumo. Nem sempre soube se querer era o certo. Sentava-me uma e outra vez, sem conseguir escrever, e cada palavra parecia em coma. Depois disso, um primeiro suspiro sem nexo. Apanhei o último comboio das duas que nem sei para onde vai. Nem sequer se volta. Quando nem como. Entrei. Só como quem nem sequer sabe ao que vai. Ao primeiro segundo consegui saber. Esperava uma e outra vez. Sabia que já não era igual. Mas queria estar ali sem perguntar ou saber porquê. Não havia nada que soubesse não fazer. Era mesmo assim. Tinha largado a pele e deixado demais. E isso, já não me incomodava. Pelo contrário, até acho que gostava.
Ana Teixeira
Ana Teixeira
Nunca gostei da tua maneira de andar. Sempre desajeitado. Gostava das tuas camisolas. Nunca gostei de te despentear. Mas sempre adorei os teus caracóis. Sempre achei piada aos teus olhos castanhos. Nunca gostei do teu olhar em assuntos sérios. Gostava do olhar profundo. Como se sem dizer nada, falasses. Sempre adoraste as minhas palavras. Sempre odiei o que fazias com as tuas. Sempre adoraste prometer coisas. Adoro a sinceridade. Nunca gostei de livros sem fim. Sempre adoraste terrenos incertos. Gostava do simples. Do sem tempo. De nós livres à noite. Numa estrada deserta ou num recanto com pouca luz. Gostava da música ambiente e de depois me lembrar dela. Gostava do toque e da respiração. Gostava do ofegante. Depois do tranquilo. Da oscilação. Do encaixe. De sentir. Gostava do cigarro. Do ambiente e das conversas cheias de nada. Gostava dos vidros embaciados e das palavras. Dos sorrisos mais evidentes. Das gargalhadas. Dos olhares de relance. De veres se eu estava a olhar. Das minhas pernas no colo. Do meu vestido mal posto. Da minha roupa interior. Das tuas mãos. A minha descontração. O teu olhar de soslaio. Arrogante. Nada interessa. Interessa tudo, ali e agora. Amanhã sem promessas. Sem dúvidas. Ser o errado. Nunca vai ser certo. O erro preferido e a fraqueza mais forte. Eram as paredes e o tecto, donas desse pecado infinito guardador de segredos. As palavras perdidas e o que já não se soube dizer. As estradas desertas a velocidades incertas. Os caminhos em vão e as noites, e aquele frio. São segudos em cadernos. Cadernos nossos. Coisas que devia ter escrito para poder lembrar. Simples. Sempre simples, eu empoleirada e tu com os teus braços à minha volta, ficavas de pé.
Deixei. Deixámos. Aquela mesma casa de sempre. De paredes frágeis e telhados de vidro. Quando lá entro, esporadicamente e porque me visito, sinto. Sinto o chão gasto pelas horas de sempre. Sento-me e sinto o frio. Já não há uma cadeira mal almofadada. Nem o sofá rasgado que servia de cama. Nem as molas denunciadoras de um colchão quebrado. Nem a manta para dois, com rasgões de incertezas e buracos de tempo. A água congelou nos canos e as contas continuam na mesa improvisada de cabeceira. Por pagar. Sem luz. Já nem aquele candeeiro velho ao fundo do corredor. Fusiveis queimados pela falta e ausência. As cortinas estão sujas. Têm marcas de cigarros de noites perdidas. Nódoas de palavras lançadas junto com beatas. Negros. Tão negras. As paredes. Estão de um branco sujo com mãos marcadas e corações desbotados. Prontas para ficar ou servirem de catálogo a uma vulgar história de amor. Ocasionalmente sente-se uma brisa quente. As mesmas velas. As pontas de fósforos queimados. Ainda vive, aquela secretária. O candelabro e o cinzeiro. O meu papel. A tua caneta. A nossa história. Confesso que me sento ao meio da sala sem mesa de centro. No chão sem tapete. Nas ripas de madeira gasta. Sinto a dureza na pele. Passa as calças e qualquer casaco quente. É um gelo estranho no sentar. No mais uma vez sentar. Sentir. Esperar. Saber. Aprender a ouvir o silêncio e as presenças distantes que vagueiam pelos cantos da casa. Faz-se noite. Não corre o sabor da comida morna. Nem dos fósforos queimados. Nem do intervalo. Nem das roupas pelo chão. Nem da tua camisa perfumada. Nem da humidade que incomoda. Nem do frio que aquece. Nem do teu cabelo desgrenhado e aquela manta grená. Nem do teu toque subtil de quem sente. De quem não quer nem pode sentir. Como as luzes que lá estão mas sem interruptores que liguem. Há umas cinzas fugidas de cinzeiros gretados. E há um isqueiro caÃdo no chão. Uma vela de pavio já curto. Uma porta que range e um gato vadio à entrada. Olha-me com ar de desdém e inveja. Recebe-me sempre que chego. Arrasta-se quando parto. Cruzo-me com a vizinha.. que casa tão fria . Sim, não era preciso muito para se ter tudo e o pouco que havia, aquecia.
Ana Teixeira
Ana Teixeira
Nunca te pedi promessas. Amores sem fim. Nunca te pedi o bem nem o mal. Aceitei tudo o que tinhas na manga. Sem questionar. Pelo menos te. De olhos vendados numa praia deserta. Sozinha na insensatez desleal que nos unia por um fio. Leve e frágil. Abandonei a ideia de um amor maior que tu. E que eu. Que nós. Que emaranhado de coincidências e acasos. E sem te pedir nada sussurrei. Inspirei o som das tuas doces palavras. Das tuas delicadas e subtis, pequenas conquistas. Deixei que a tua silhueta se desenhasse sobre a luz reflectida na janela da minha cabeça. Admirei-a. Deixei que surrealmente os teus dentes me marcassem a pele. E sem sequer reflectir deixei que o toque dos teus dedos nas entranhas dos meus cabelos emaranhados pelo desejo, me levassem. Deixei que ficasses naquilo que mais tinha de meu. Que os nossos corpos se encaixassem numa quimica diabólica e desenhassem o que seriamos depois disso. Uma sombra. Ao meu ouvido deixei que se ouvisse o teu folego incontrolavel. A tua sede imensa. O teu amor para parvos. O teu dicionário indecifravel. Sem contextos nem possÃveis definições. Aceitei que adiasses. Que me adiasses. Que não fizesses planos. Afinal, era só um jogo. Jogado com as tuas regras e os teus quereres. Punhas e dispunhas. Fazias amor ao som de radiohead sem saberes o quão fucking special poderias ser. Ou vir a ser. Mal deste por ti eu tinha-me deixado de palavras cruzadas. Tinha deixado os romances na estante. Esqueci os teus lábios quentes. As tuas mãos. Geladas pelo frio das minhas formas. Aquele com que me aquecias. Pelo frio do vão de escadas onde nos sentámos e como dois estranhos fizémos amor. Pela rigidez daquela parede onde me ensinaste o que era querer loucamente. Sem limites. Sem pensar. Ponderar. Querer. Aprendeste que nem sempre era fácil ler-me. Mas que eu estava de tal forma sem chão, paredes e tecto que a qualquer segundo era eu quem me deixava cair por terra. Quem se deixava ruir. Foi quando leste no meu mural interno escrito a pau de giz que eu era frágil. Fo quando te leste. Quando te leste em mim. Que não te amava mas que jamais te negaria. Podia não ser ao fim da primeira ou segunda tentativa mas que em algum momento eu haveria de continuar ali. Pois é. Lá estou eu. Com a força para te exorcizar. Mas quando tento desenhar o ponto negro, o ponto de final, acabo por rabiscar umas reticências e continuo a respirar-te como verdade. Como se ali estivesses ou pertencesses ao espólio de uma vida. E aà tens a certeza. A certeza de que eu sei que o amor é para os parvos, para quem acredita nele mas que aquilo que sinto e pronuncio vai buscar ao amor a primeira da suas essências. Gostar. Sentir. E vais-te deixando ficar. Perdoas as minhas ausências e palavras disperas. Doces e subtis na sua origem mas transtornadas pela falta de sentido. Do teu sentido. Perdoas as distâncias a que me deixei ficar. As saudades que deixaste. Que nunca soubeste perder. As minhas. As tuas por mim. As nossas saudades. Pedes-me que aprenda ou pelo menos tente, aprender a perdoar. Para deixar que o teu carro possa vir buscar-me ou que à s cinco da manhã o teu telemovel possa tocar com a resposta ao teu querer: ainda estás acordada? Estou e estarei mas sem que a minha sede te procure. Sem que possas saber o vazio que deixas de todas as vezes que partes em silêncio. Sem que possas saber quantos pedaços ainda restam no chão. Naquele chão em que nos perdemos. Desculpa mas já não o posso pisar. Auto mutilar-me-ia sem motivo aparente. Sim, os restos dos vidros partidos continuam lá. Os estrilhaços de uma história, ainda, ali caidos. Sim continuamos lá por colar. Mas eu não me vou cortar. Desculpa, desculpa, desculpa mas não me arrisco. Não me vou arriscar. Deixa-te ficar. “Está quente aqui e la fora faz frio… ouve, o amor é para os parvos que acreditam nele. O resto é tão mais” sussurravas tu. “Não me vou cortar” encostava a cabeça e dizia eu, sem que sequer pudesses ouvir.